UPPs revelam novo mapa do município
Aos 450 anos, a cidade do Rio de Janeiro está tendo parte do território revelado. Desde seu início há sete anos, o programa de pacificação de favelas conhecido por Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) colocou no mapa 285.668 metros de malha de logradouros no mapa da capital fluminense. Não é pouco. É mais que o dobro de ruas mapeadas: até 2012, a cidade tinha em sua base de georreferenciamento um total de 113.876 logradouros em favelas e hoje tem cerca de 400 mil.
Os dados são do Instituto Pereira Passos (IPP), ligado à prefeitura, e fazem parte do programa Rio + Social, realizado em parceria com o Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-Habitat).
O trabalho de mapeamento teve início em 2011. Uma equipe de 98 técnicos e pesquisadores, divididos por grupos, caminha pelas favelas ocupadas pela polícia identificando as ruas que, até então, só os moradores tinham acesso. Estas ruas eram parte de um território onde quem mandava eram os traficantes de drogas e seus “exércitos”, e só entrava quem eles permitissem. Por décadas, uma enorme extensão da cidade ficou encoberta pelo manto desse estado paralelo.
“Havia um pedaço da cidade que as fotos aéreas não mostravam”, diz Pedro Veiga, coordenador do trabalho no Rio + Social. Só depois que as “novas” ruas foram colocadas no mapa é que a prefeitura pode enviar para estes territórios o serviço de coleta de lixo, água e saneamento, bem como viabilizar a entrada de empresas privadas concessionárias de luz, telefone e TV por assinatura.
Pelo Censo de 2010 do IBGE, o Rio tem 1.070 favelas. Desde 2008, 29 delas foram ocupadas por 18 UPPs. A intenção das UPPs não foi acabar com o tráfico de drogas – que na verdade segue em grande parte delas – mas sim impor a presença do Estado, retirando de circulação os “soldados” armados dos traficantes que mantinham a comunidade refém.
O processo tem encontrado forte resistência de bandidos e da própria comunidade em algumas áreas (como a Rocinha e os complexos da Maré e Alemão), com muitos casos de policiais que repetem padrões de violência e abusos praticados em tentativas anteriores de policiamento.
Na maioria das favelas, porém, o programa se consolidou e está transformando a paisagem. Comunidades como o Dona Marta, Chapéu Mangueira (na Zona Sul), Borel (Zona Norte) e o Providência (Centro) estão sendo tomadas por comércio (legal), restaurantes, bares, festas e novos moradores com renda mais alta.
O Vidigal – morro que pode ser visto da praia de Ipanema, rodeando o Hotel Sheraton – é o que está se sofisticando mais rapidamente. Em uma área central do morro conhecida por Arvrão, antes quartel-general dos traficantes, estão sendo construídos hotéis butiques, restaurantes e boates e moradores ilustres chegam para disputar espaço com os que estão há anos na área.
É o caso do astro inglês de futebol David Beckham, que no ano passado comprou uma mansão com fachada de madeira e uma ampla varanda, na área de melhor vista da favela, pela qual teria pago R$ 1 milhão, segundo notícias que circularam no mercado imobiliário local. Outros que adquiriram imóveis no Vidigal foram o artista plástico Vik Muniz e a produtora de cinema Jackie De Botton.
“O Vidigal deveria ser a área mais valorizada da cidade, pois em qualquer lugar do mundo as pessoas de alta renda preferem locais com essas características (altitude elevada, vista privilegiada)”, comenta a corretora Cristiane Parisi, da Sioux Imóveis, especializada em imóveis de luxo na cidade. Segundo Parisi, as transações imobiliárias têm sido feitas diretamente com os proprietários, não passaram por corretores que ainda estão impedidos – ou inibidos – de entrar nas comunidades.
Leonardo Schneider, vice-presidente do Secovi Rio, que representa as imobiliárias e administradoras condominiais, confirma que a entidade está em negociação com a prefeitura, por meio do IPP, para apoiar a entrada de corretores regulamentados nas áreas de UPPs.
Estar, por enquanto, fora desse mercado não quer dizer prejuízo ao setor imobiliário oficial. Ao contrário. O processo de pacificação, potencializado pelas obras de infraestrutura voltadas para os grandes eventos, principalmente a Olimpíada de 2016, vem provocando desde 2010 inédita valorização dos imóveis como um todo.
“As UPP resgataram regiões inteiras, bairros e ruas nos quais os imóveis antes estavam sem liquidez e não passavam de um abacaxi na mão dos proprietários”, comenta Schneider.
Apesar de todos os problemas, em geral os moradores apoiam o programa. A constatação é da socióloga Fabiana Luci de Oliveira, pesquisadora da Fundação Getulio Vargas e autora, junto com outras quatro pesquisadoras, do livro “Cidadania, justiça e ”pacificação” em favelas cariocas”, lançado recentemente pela Editora FGV. Elas fizeram uma pesquisa de campo entre os anos 2010 e 2013 com foco no acesso à justiça e cidadania nas favelas cariocas.
Para a pergunta “Na sua opinião, após a vinda da UPP para a comunidade a situação de segurança melhorou, ficou igual ou piorou?”, a maioria (77%) afirmou que houve melhoria. Questionados sobre o tratamento que recebem da polícia, apesar dos moradores relatarem diversos conflitos e tensões, a avaliação da convivência com a polícia foi “mais positiva do que negativa”, segundo Fabiana. A maior parte dos moradores deu nota maior que 5 (em uma escala de 0 a 10) quando indagados acerca de sua avaliação ao tratamento recebido pelos policiais lotados na UPP de sua comunidade.
“Verificamos que a percepção é no sentido de melhoria quanto à redução de tiroteios permanentes, apontando para o sucesso da operação militar, de conquista e ocupação de um território definido mas que, por outro lado, trouxe novas formas de sociabilidade e impôs outras regras, com as quais os moradores não estavam acostumados a lidar, como a lei do silêncio, proibição de bailes e festas”, observa Fabiana.
(Valor Econômico)

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